De volta às origens com Inezita Barroso

Por Marina Gaeta

Fotos: Editora Inove

Eta, mulher de personalidade! Quem acompanha o programa “Viola, Minha Viola”, aos sábados à noite e pelas manhãs de domingos, na TV Cultura, conhece bem o carisma de Inezita Barroso. Essa apresentadora com timbre de voz inesquecível, deixa seu público extremamente à vontade durante as gravações de seu programa, tanto é que há filas na porta do Teatro Cultura e as caravanas têm datas reservadas. Isso mostra o quanto é querida, e explica, também, os 28 anos do programa sob seu comando.


Caipira por natureza

Ignez Madalena Aranha de Lima, paulista de nascimento e caipira de coração, prova até hoje que seu negócio é a viola. Não é para menos: desde criança está acostumada com o canto do sabiá e o cheiro do fogão a lenha. A família de sua mãe era do interior de São Paulo e composta por 18 irmãos, dos quais, os homens tornaram-se fazendeiros em Campinas, Mogi Guaçu, Mogi Mirim, Santa Cruz do Rio Pardo e, assim tudo começou. “A fazenda era um reino encantado, sempre passava as férias com meus primos nas casas de nossos tios, e a primeira coisa que amei na minha vida foi a viola. Íamos para a colônia ouvir moda de viola, era convidada para caçar onça...Essas loucuras de tio”, relembra a cantora.

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       No interior, a parte musical era muito festiva, com Folia de Reis, Festa de São João, Terço de São Gonçalo, quermesses; e na capital, Raul Torres e Celinha eram ouvidos nos rádios de capelinha. Aí, entrou o violão, que deixava Inezita com muitas saudades da fazenda e do mato (apesar de ter horror a pernilongos e mariposas). Ela conta que começou a recolher as notas musicais nessas modas caipiras da colônia, onde cantava e tocava viola, embora nessa época, tocar viola era ‘coisa de homem’. Seus tios e tias (ainda solteiros) treinavam tango para dançar em um cabaré (como eram chamadas as casas noturnas) e ela, com seis anos, assistia e namorava aquela situação e, de tanto ouvir as canções, decorou as letras argentinas e as cantava, bem afinada. A partir daí, ingressou em uma escola de violão, canto e de boas maneiras (que, segundo ela, nunca aprendeu e continua fazendo as coisas do seu jeito). Junto a essas aulas, fez 10 anos de piano, por gosto de seu pai, e afirma saber ler uma partitura até hoje. “Aos 12 anos, meu pai queria que estudasse para me formar e não viver só de música, mas nos aniversários e festas da igreja, lá estava com meu violão. Foi uma escola muito vasta. Vem daí o meu amor pela música, e como sempre fui apaixonada, ouvia tudo, porém o que gostava era do popular, do caipira”. E continua assim. Inezita assume que adora as canções de Sílvio Caldas, Tião Carreiro, Raul Torres, mas seu negócio mesmo é o caipira, por ser diferente.

 

       Uma carreira com muitos prêmios

Essa grande estrela não mudou em nada seu jeito de ser, mesmo com sete “Roquete Pinto” seguidos (troféu equivalente a um Oscar da tevê) e um “Saci” (um Oscar do cinema pelo filme “Mulher de Verdade”), sem contar os prêmios dos discos, logo no primeiro “LP”, com as músicas “Moda de Pinga” e “Ronda”.

Inezita participou de renomados programas naquele tempo, dentre eles, um de Noel Rosa, a convite de Túlio de Lemos, na TV Tupi (cinco meses após sua inauguração) e na TV Paulista (atual Rede Globo). Fez também um ano de Rádio Nacional, entretanto, sua vontade era trabalhar na televisão. “Fui a primeira cantora contratada da Record, em 1954. Fiquei oito anos, com um programa exclusivo na rádio e outro na tevê – ‘Vamos falar de Brasil’. Foi meu maior aprendizado, ganhei espaço e conquistei muitos prêmios, mas não era fácil, éramos julgados pelos cronistas o ano todo. Fiz uma carreira bonita, séria e ao vivo”.

Começou na TV Cultura na época em que Moraes Sarmento era apresentador de um programa que passava na rádio antes de ir para a tevê, onde participavam duplas caipiras. E Inezita quis saber como era isso. Cantou no segundo programa e fez sucesso. Dali pra frente, foram transmitidos dez programas no próprio estúdio, com uma casinha de palha e tronco de árvore, e, no Teatro Cultura, tornou-se apresentadora ao lado de Sarmento. Hoje, seu público fiel faz jus a essa brilhante pessoa, aplaudindo-a de pé a cada ‘Viola, Minha Viola’. “Sua seriedade, autenticidade, boas duplas, as coisas que o povo lembra com carinho e passam de geração para geração... Tudo isso faz com que o programa permaneça no ar por todos esses anos”, acredita a apresentadora.

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Uma vida agitada, em que é preciso abdicar de momentos pessoais devido às profissões por ela exercidas. O pouco tempo livre é dedicado à sua família, à casa, aos pássaros que a acordam pela manhã, etc. “Adoro cozinhar e cuidar da minha casa, do meu jeito e do meu gosto. É um verdadeiro brechó; aproveito todos os meus presentes, coleciono relógios, ursinhos de pelúcias e miniaturas de trens”.

Matéria publicada em setembro/2004 na Revista Autêntica e editada

A autêntica Inezita

“Coloco emoção em tudo o que faço. Quero emocionar quem está me ouvindo. É preciso sentir emoção, o que não vemos mais nos dias de hoje. Para mim, a Internet é uma palha seca, não há sentimentos. Essa modernidade deixa todo mundo igual. É difícil achar pessoas autênticas no mundo de hoje. Não é crítica, é uma época”, e ainda reforça: “Não cuido da minha aparência, não quero ficar bonitinha para aparecer na televisão, pois o importante é o que está dentro, o que quero passar para dentro das pessoas. Sou assim e me sinto bem como sou”.

Seria impossível dizer o contrário de alguém que vive para a música, principalmente, a de raiz. Para ela, o povo brasileiro joga fora sua matéria-prima ao importar artistas por extravagância: “Isso é muito cruel, não percebem onde está o tesouro da raiz, da música, da cultura ‘raízes caipira’. É um preconceito pensar que o caipira é burro e preguiçoso. Ele é o responsável por nossa cultura, lavoura e economia”, e acrescenta: “Basta examinar as letras de moda. É um povo muito sofrido, mas quando fala, faz poesia. Ninguém da cidade faz igual. Ele conta a história do boi e nos faz chorar, e se canta sobre o homem traído é algo bonito, pudico e simples. A música é milagrosa”.

Ela é assim – autêntica. Coloca sentimentos em suas palavras e não quer saber de falsas aparências. Nada de dietas, adora churrasco, macarronada e não perde uma feijoada aos sábados. A saúde de ferro deve-se à boa alimentação vinda da infância, uma vez que não existiam produtos industrializados. “Sou do tempo da pinga destilada da roça, muito da boa. Gosto muito de comer bem. Na minha família é feio ser magrela, parece que está passando fome”, brinca.

Para a cantora, estar na terceira idade é sinônimo de felicidade. “A terceira idade que conheço é o meu auditório. Eles não estão nem aí, chegam na porta, sentam no ‘murinho’ para esperar, comem pipoca, amendoim, trazem bolo. Muitos estão com mais de 70 anos. Isso é lindo, mostra que não se importam com a idade e sim, com a saúde, com o ‘estar bem’”.

Sua grande preocupação está no descaso com a saúde pública aliado ao desamparo por parte da família e do governo. Acredita que o Brasil deveria dar exemplo aos mais jovens, melhorar a assistência, aumentar os hospitais, pois se o idoso não brigar, não tem nada a seu favor: “Falta muito sentimento, muito coração. São pessoas sábias e valentes. Muitos trabalham o dia inteiro, debaixo de sol ou em casas de família. Velho não é lixo, e ainda há jovens que debocham, eles não entendem nada disso. É uma questão de cabeça, de sentimento, de coragem”. Inezita vê a terceira idade mais participativa e inteirada dos assuntos sociais, querendo até votar, e isso é muito importante. “Dou parabéns, eu amo essa gente valente!”.



Moda de viola sempre foi seu destino e a acompanha até hoje, aos 86 anos, no sangue, na alma, no coração e no “Viola, Minha Viola”